Reza a lenda que certa vez, quem sabe por ter abusado um pouco mais do aperitivo, Vinícius de Moraes deixou escapar que São Paulo era o “túmulo do Samba”. O motivo de tal afirmação, assim como sua pertinência, é obviamente discutível; contudo, a repercussão da mesma é um fato. Sem contar que, com essa polêmica, alimentou-se ainda mais a rixa entre Rio de Janeiro e São Paulo.
O Rio é, sem sombra de dúvidas, a capital do samba. Posso dizê-lo com certa segurança porque há pouco mais de um mês, por conta de um colóquio na UERJ, tive o privilégio de conhecer a cidade maravilhosa e, por ser amante do samba, não pude deixar de visitar a Lapa. Há qualquer coisa de especial naquele lugar, não sei se pelo glamour do Rio de Janeiro, por saber que por lá pisaram Noel, Cartola, Nelson Cavaquinho, Pixinguinha, ou se por ver o Chico Buarque falando de samba em frente aos seus famosos arcos. Mas há um certo ar naquelas ruas, um pouco nostálgico, do tempo daqueles grandes mestres, que é o suficiente para que no âmago nos sintamos também boêmios autênticos. Do mesmo modo, quando caminhamos por Copacabana, Ipanema, torna-se impossível não pensar na Bossa Nova. Reações naturais, considerando-se a história desses locais.
De qualquer modo, aqui no sepulcro paulista, existiu um sambista, filho de imigrantes italianos vindos de Veneza para Valinhos, chamado João Rubinato, que mais tarde se tornou conhecido como Adoniran Barbosa, compositor de grandes sucessos imortalizados pelo grupo Demônios da Garoa como Saudosa Maloca, Trem das Onze, Samba do Arnesto,Tiro ao Álvaro, este último também interpretado por Elis Regina.
Seu samba é único, com letras muito bem elaboradas, de um humor delicioso que muitas vezes permeia a crítica social. Com o sotaque próprio dos italianos e certos erros de concordância como “nóis fumo e não encontremos” ou “a turma lá do morro convidaram-nos”, retrata com a precisão de uma crônica o cotidiano dos trabalhadores de São Paulo, os sambas acontecidos no Brás e no Bexiga, o desenrolar de romances, os despejos nas favelas, tendo também viadutos, praças e avenidas famosas de São Paulo como parte integrante do cenário de suas canções.
Com efeito, somente a imagem de Adoniran Barbosa já seria suficiente para dizermos que São Paulo está entre os pontos altos do samba brasileiro. Ainda assim, o selo Biscoito Fino, à guisa de reafirmar esta evidência, lançou uma caixa com quatro cds, contendo gravações impecáveis de composições do também paulista Paulo Vanzolini, com interpretes da mais alta estirpe como Chico Buarque, Elton Medeiros, Inesita Barroso, Paulinho da Viola, Miúcha, Carlinhos Vergueiro, Martinho da Vila, Paulinho Nogueira, entre outros. O título desta jóia não poderia ser mais pertinente do que “Acerto de contas de Paulo Vanzolini”, o compositor da imortal Ronda, de Volta por cima e Praça Clóvis. Sóbrio e mordaz, Vanzolini não enfatiza em suas letras mulatas, sol e mar, e sim os crimes passionais, a melancolia, os batedores de carteira na praça, sem deixar que nem mesmo um único detalhe da vida urbana paulistana escape ao crivo de seu olhar atento, constituindo-se assim, como um dos maiores compositores de samba do Brasil.
Enfim, o poeta tinha consciência plena desses dois gênios incontestáveis do samba paulista, e sendo um diplomata, não diria aquilo a sério, evidentemente. Afinal de contas, samba mesmo não tem fronteira, todos sabem, é música baiana, carioca, mineira, paulista e, sobretudo, brasileira!
Texto que publiquei no Correio em 2006
domingo, 2 de dezembro de 2007
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